Sabes aquela clareira por detrás da minha pequena casa? Sempre nos perguntamos aonde é que iria dar, quando estávamos sozinhos no silêncio do meu quarto. O meu quarto era o mundo e a janela, por onde olhávamos o céu e fazíamos as nossas juras de amor, era a luminosa Lua que nos abria os olhos para a imensidão do universo que nos cercava. Quando foste embora na noite tardia, continuei a admirar aquela clareira, onde os pássaros sobrevoavam e faziam danças que atraiam o olhar de qualquer alma viva que se atrevesse a olhá-los. Tão perfeitos, tão singelos. Permaneciam ali no ar, suspensos por debaixo das estrelas. Aquele sentimento de liberdade penetrava-me sabes? E a vontade de voar com eles era cada vez maior. Sempre achaste esta minha inocente maneira de ser maravilhosa e disseste-me um dia ao ouvido, enquanto descobríamos os recantos da clareira na janela do meu quarto, que fora isso que te cativara em mim. Isso e os meus caracóis que faziam doces desenhos abstractos nas minhas costas. Gostavas de torná-los ainda mais perfeitos com os teus dedos. E eu olhava-te a fazeres esses pequenos gestos delicados, perdendo-me no teu olhar. O mesmo olhar que me apaixonou. Mas sabes uma coisa? Aventurei-me na clareira. Esta solidão levou-me a querer sair e a ocupar o meu pensamento com algo novo. Tens estado tão longe da minha vida. Ainda me lembro do dia em que te recrutaram. Foste para um lugar escuro onde o amor não encontrou espaço para florir. E a verdade é que enquanto eu olho as estrelas que nos viram amar nas noites longas, tu tentas encontrá-las no meio da poeira que cobre esse campo de batalha onde tens vivido. O terror habita nos teus olhos por temeres que eles nunca mais encontrem os meus. O meu coração chora por ti. Mas saí durante uma manhã sob a aurora do horizonte para acalmá-lo. Atravessei a clareira que tantas vezes os nossos olhos admiraram. Sabes o que encontrei meu amor? Árvores atravessavam o meu caminho. Uma floresta habitava depois da nossa clareira. Era tão imponente e o verde abundava. Ainda me lembro que é a tua cor preferida. Deitei-me sobre um ramo caído e contemplei o céu. Os raios de sol tinham de encontrar o seu caminho para chegarem às ervas baixas. Isto tornava aquela visão da floresta tão apaixonante. Ali os pássaros não voavam como dantes. Escondiam-se por entre as folhas esvoaçantes, temendo que os visse. Pequenos seres da floresta cercavam-me e eu não me importava. Queria-te ali comigo, queria tanto, queria-te mostrar o quão belo é o que vem depois da nossa clareira. Tenho de te esperar. Até lá aguenta-te meu amor, não morras nessa guerra em vão, porque tenho de te dizer uma vez mais que tens o meu coração e que, para lá da clareira, há uma floresta à espera por ser descoberta por nós. Vem, eu te espero.