No futuro vais te deparar contigo mesmo a olhar-te no espelho do teu quarto. Verás que a barba cresceu, que tens os olhos encovados do cansaço, que a roupa que usas apenas a usas porque o trabalho assim o exige, que o nó da gravata teima em não ficar direito todas as manhãs, que tens de te levantar diariamente cedo da cama onde todos os dias adormeces tardiamente e que começas a não saber te definir por meros adjectivos ou simples nomes, porque deixaste de te conhecer. Mas não te assustes meu amor, porque, se isso acontecer, olha para trás e vê. Vê, através do reflexo do espelho singelo, quem se encontra deitada debaixo dos lençóis na cama partilhada por dois apaixonados desde a sua inocente e pura adolescência. Estarei deitada ainda com a forma do teu corpo à minha volta, ainda no sonho de te amar. E se deixares de saber quem és, deita-te de novo ao meu lado, abraça-me e eu te direi, em forma de segredo, como um sussurro da brisa que entra pela janela do nosso quarto, quem é o homem por quem me apaixonei e aí saberás que foste o tal que enfeitiçou o meu coração.