Olho-te nos olhos. Vejo o teu corpo cair morto no cadeirão onde permaneces deitada o resto do dia, até que ajudo a deitar-te no colchão, para no dia seguinte voltares a passar o dia calada e sem um sorriso proferido pelos teus lábios e saboreado pelos meus olhos. Tornaste-te num corpo sem vida, sem alegria. Será que lá no fundo ainda te lembras de todas as birras que eu fazia ? De todas aquelas zangas e apertões que partilhamos ?
  Sou tão inocente ao pensar isto. É claro que não te lembras. A doença apoderou-se de tudo o que eras, foste, és e serás. Não te mexes. Os teus músculos tiraram férias contínuas. As pernas teimam em falhar sempre que estás de pé e o teu corpo cai por terra se ninguém estiver lá para te segurar e amparar. Já não me lembro da última vez que disseste o meu nome. Há quantos anos terá sido ? Esta agonia vive em mim mesmo que disfarce com uma aparente alegria ou um sorriso. O meu coração chora com saudades da pessoa que vive nas minha memórias de infância. Não estás com dores, mas eu estou por te ver assim sem alma viva que habite os teus olhos cansados, a tua pele enrugada e os teus cabelos brancos. Os teus pés não mais pisam a pedra da calçada dura do caminho que percorreste até agora.