Sinto a minha almofada em contacto com a minha face ensonada. Os meus olhos ainda custam em abrir. O corpo só agora é que começa a reagir às pequenas ordens do cérebro adormecido. Mas deixo-me ficar um pouco mais nesta melancolia, neste leito quente. Fecho os olhos e as tuas mãos deitam-se sobre o meu corpo cansado, acariciando as minhas ancas. Beijas as minhas costas e os meus ombros finos e desprotegidos dos lençóis. Mexes-me nos cabelos, que fazem um desenho na almofada, definindo e reformando os caracóis do dia anterior, ainda com o cheiro do amaciador que tu gostas. O meu pescoço fica ao descoberto e sinto nele a tua respiração, acelerada e tremida. Os teus braços estão agora a envolver o meu corpo num longo abraço. Sorrio e mordo os meus lábios. Este desejo de te beijar começa a apoderar-se de mim. Abro suavemente os olhos para te puder olhar nos olhos, antes de te beijar e sentir-me única contigo. Olho para trás à tua procura e um espaço vazio na cama, onde tu deverias estar, é o que consigo ver. Não consigo perceber. Consigo sentir o teu abraço e o pulsar do teu coração, mas encontro-me sozinha na cama que deveriamos partilhar, nesta manhã de Janeiro. Volto costas ao espaço vazio e fecho de novo os olhos. Quero puder continuar a pensar que estás lá, mas a verdade é que é apenas um espaço por preencher. Levanto-me e volto à minha rotina, pensando unicamente em ti, sabendo que um dia aquele lugar não mais estará vazio e que aquelas carícias e aquele abraço serão reais.