Sentei-me, desassossegada, no parapeito da minha janela. Pensamentos vagos e imprecisos passam-me pela cabeça. Memórias do passado assombram-me o presente. O meu olhar aflito aperceber-se das acções vagarosamente repentinas do exterior. Penso no que perdeste, nas memórias vividas em vão que te foram apagadas sem permição, nos momentos de felicidade que vivi a teu lado. Nada disso é agora recordado. Foi esquecido por ti, mas não por mim, pois vivo com essas recordações todos os dias. Olhar-te nos olhos e não ver alma viva que os habite dá cabo de mim, arruina-me a calma. Perdi-te à muito tempo atrás e já lá vão 10 anos desde que te vi sã. Vejo o comboio a passar nos caminhos de ferro enferrujados, gastos pelos anos e a fazer aquele barulho tão seu. Nos vagões, as pessoas voltam do seu dia de trabalho, exaustas do aborrecimento do dia-a-dia e indiferentes aos pensamentos e opiniões de outros com quem se cruzam. Ouço, vindo do parque, o chilrear dos pássaros, que me toca ao de leve no meu cérebro cansado. Ouço as folhas das árvores e sonho acordada com o dia em que tu voltarás a ser tu mesma, mas rapidamente "acordo" e dou por mim com uma salgada lágrima a humedecer-me a maçã de rosto. O raiar do sol toca agora o horizonte e os seus raios a minha face, acariciando-me calorosamente. Abro a janela e contemplo aquele momento único com vontade de esquecer os pensamentos negativos e as memórias azedas que me invadem no momento. As minhas bochechas rapidamente gelaram com o frio vento árctico que me bate na cara. Este dia de inverno estava a chegar ao fim. Fecho a janela mal o sol ficou coberto. Não valia mais a pena estar ali. Não valia mais a pena continuar a pensar em ti, a pensar no que foste e a pensar no que perdi. Um beijo da tua neta.