avó, minha avó.
  Os teus cabelos cor de neve sobre a tua testa cansada realçam as rugas que outrora estiveram escondidas na tua tenra idade. O teu olhar desprovido de vida após a longa caminhada na estrada efémera está a chegar ao fim. As pedras da calçada que pisaste ainda têm a tua marca de passagem e guardo em mim a certeza de ser uma dessas pedras que construiu felicidade na tua vida. A vassoura que antigamente utilizavas encosta-se tristemente a um canto, definhada pelas teias de aranha e madeira oca. Olhar para ti custa. Cuidar de ti custa. Dizer a palavra avó custa. Dizer a palavra avó já não tem significado sem tu a perceberes. Dentro de ti, as memórias cuidadosamente construídas ao longo da vida foram sendo retiradas, uma a uma, como se de um jogo se tratasse. Foste te esquecendo aos poucos das pessoas que realmente te amavam e foste ficando com cada vez menos brilho nos teus olhos. O teu olhar vagueia no vazio à procura de respostas que já possuiste mas que te foram roubadas violentamente, sem pudor. Os remédios de nada servem nesta fase desfalecida. Ver-te deitada, sem movimentos, é o pior castigo para quem ama. Vagas memórias de ti prendem a minha mente e fazem querer voar de volta ao tempo em que tu eras tu. Avó, escusado será dizer que tenho saudades tuas.